Voltei a Sangano, depois das calemas que, em princípio, se foram até novo equinóceo que as solte. A praia está diferente, pareceu-me maior. A maré, manhãzinha, estava vaza mas mesmo assim o mar, um nadinha espevitado p’ro costume, dançaricava mais abaixo, como quem desceu a bainha da saia ao areal ali espojado. E pela primeira vez consegui atravessar o pregueado miúdo de rochas que costumavam impedir a passagem para a baía mais ao lado, de que até então apenas avistara o redondo azul a bordejar a falésia recortada.
Logo ali a novidade da lagoa, enorme, também ela muito azul a desenhar-se na areia dourada e a enfiar-se entre as arribas. Praia ampla, quase virgem,, de um lado o mar, do outro as arribas, e lá bem encostadinha a lagoa, escondida da marca das pegadas, poucas, que se avistam junto à borda d’água. O fundo é de argila, cinzenta, viçosa vegetação ao redor, é uma espécie de maternidade de peixes que rabioscam fugidios à aproximação de estranhos, no caso gente a enterrarmos os pés no fofo escorregadio da lama.
E logo adiante a surpresa dos pés das falésias enfiados em meias cinzentas com búzios pequenitos esbranquiçados pregados ou espetados. O tempo e a acumulação de sedimento se encarregará de fossilizar o coturno. Para já , parece que estamos a ver um enorme pavilhão a céu aberto onde instalações de artista caprichoso se exibem. Artista que a sabemos ela, mãe-natureza, imprevisível e caprichosa como convém.
Para completar a mostra e pasmar os visitantes aqui e além, pousados na areia, uns pudins, alguns meio escangalhados no desenformar, decorados com umas rosetas de caramelo mais apertado, castanho muito escuro. Digamos que os “pudins”, rochas magmáticas que afloram e o sol esquadraça à supeficie, vão puxando o caramelo à medida que esfriam, formando-se cristais arrebicados, tipo pétalas, que lhes dão aquele aspecto de corolas de rosas empinocadas. E mais se hão-de empinocar e aglomerar por força do tempo, e dar lugar aos maciços das arribas que se alteiam a ver o mar. Falésias altaneiras, encarapinhadas de verde nos cocurutos, de onde a onde carrapitos de araucárias, aos avanços e recuos sobre a praia, ora acinzentadas e reboludas, ora tingidas de amarelos ocres dégradés, laminadas, a lembrar gigantes pasteis folhados .
Como não sabia como me explicar, tão encantada fiquei com o que vi, deu-me para a pastelaria alegórica. É um recurso como outro qualquer. À falta de melhor imagem….
Luanda, 27 Abril 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
É tempo de calemas....
Viajando de novo pela estrada Luanda-Benguela, que desliza junto à costa, pela primeira vez vi o mar riscado de branco, às tirinhas, e sem aquele aspecto de imenso lençol azul turquesa com pinceladas de verde esmeralda, todo tufadinho, estiraçado até à linha do horizonte. Pelo contrário, mostrava-se de ar enfunado, a deixar adivinhar pouca convivialidade para passeatas descuidadas à beira-mar, banhos e mergulhos. Sua excelência estava de calemas…
Calemas, ondas grandes, as marés-vivas da costa africana, que ocorrem por altura do equinócio, chegaram mais tarde do que o costume, diz quem conhece, e vieram emprestar ao abril-águas-mil efeitos secundários terrivelmente belos e inclementes. Da ilha de Luanda chegou notícia de uma trintena de habitações arrasadas da noite para o dia, sina de musseque, definitivamente, e dos atrevidos avanços praias adentro que arredaram, provisoriamente, os veraneantes de fim de semana. Nas praias da costa, rumo ao sul, o efeito calema já deixou marcas, afectou acesso aos resorts de Sangano, logo em reposição, depenicou o areal, e escabujou-se à roda das cubatas da aldeia dos pescadores dali, mais avisados e prevenidos, afortunadamente. Espero voltar lá, brevemente, e ver com está.
A surpresa aguardava-nos na foz do Kuanza que, segundo entendidos, até final do mês, ou pouco mais, vai mudar completamente de figura. Com efeito, a bela língua de areia que se espraiava entre o oceano e o rio, delicada e fofa como um palito la reine, apresentava-se um tanto desdentada, com entradas por onde galgavam as ondas até lamberem o rio, agora azul marinho em correntezas de meter respeito. Como quem sabe o que aí vem e já se vai preparando. A fazer fé nas previsões, que os movimentos da geo-dinâmica autóctone, surpreendentemente espantosos, não enganam ninguém, a restinga vai desaparecer a brevíssimo trecho, na margem direita vai nascer uma praia, e o rio vai entrar a direito no mar, sem se demorar naquele comprido lagozinho remançoso, mas com forte personalidade, onde nos acocorávamso em amenas cavaqueiras, quais hipopótamos de pequeno porte e grande deleite. A caminhada restinga fora, ora na frescura espumosa do mar, ora no chapinhar cóceguento do rio, desaguava sempre em banhos de caldeira morna, lentos, demorados, relaxantes. Acabou; ou vai acabar. Outro programa de festas há-de vir, que o sítio é de eleição e vai continuar a ser paradeiro de repouso e fruição.
Nas margens os mangais arregaçam mais ainda os esguios troncos, quase tranças, as águias pesqueiras planam altaneiras a mirar a pescaria, e os pescadores amadores, e amantes de pesca grossa, fazem contas ao peixe que está para vir já que, de momento, o que por aqui estagiava se foi em demanda de águas mais serenas, longe das calemas. Plantas, bichos e homens em concertada espera, quando o tino dos homens prevalece, que dos outros não há que temer, a mãe natureza os educou no respeito das tradições e na justeza dos costumes .
Ela, a mais-velha, se respalda em seus jeitos de realeza e, se cultuada a preceito, é magnânima em seus mimos, quanto desmesurada em seus amuos. Da sua raiva, em espasmos de sentida revolta, sabem sobretudo os homens que continuamente a provocam com arrebites de assomos de civilização, cada vez maiores os avanços e as perdas. Avançam, sem olhar a meios, os detentores do chamado progresso civilizacional. Perdem os demais, plantas, bichos e homens. E sobretudo os homens. Os que não navegam na crista da onda do progresso. Os das civilizações ditas atrasadas. Os das sociedades ditas subdesenvolvidas; ou das regiões (países) ditas em desenvolvimento; ou das economias ditas emergentes. Depende do que têm ou do que podem vir a render. E quando rendem, rendem para quem pode, para quem já tem e não para quem precisa, porque é preciso ter para poder cavalgar a onda. Resistir à calema.
As calemas que a tempos se eriçam na costa africana, em espendores de espuma e caprichos de ventania, revolteando areias, (re)talhando margens, expressivos bailados de Kiandas, as deusas dos mares, são aguardadas e celebradas como lhes é devido. Apenas os indígenas vulneráveis as temem, porque as respeitam e guardam reverência à mais-velha, mãe natureza. E a velha sente que os seus ensinamentos se desconjuntam, a terra se desmorona. E estrebucha e braveja. Dá sinal. O planeta, ele, o mais-velho, representa o poder, ela a força, mas ele não pode nada. Está seriamente ameaçado. Todavia, e ainda, ao abrigo das calemas da civilização? Nada o garante. Muito pelo contrário.
Luanda, 22 abril 2009
Calemas, ondas grandes, as marés-vivas da costa africana, que ocorrem por altura do equinócio, chegaram mais tarde do que o costume, diz quem conhece, e vieram emprestar ao abril-águas-mil efeitos secundários terrivelmente belos e inclementes. Da ilha de Luanda chegou notícia de uma trintena de habitações arrasadas da noite para o dia, sina de musseque, definitivamente, e dos atrevidos avanços praias adentro que arredaram, provisoriamente, os veraneantes de fim de semana. Nas praias da costa, rumo ao sul, o efeito calema já deixou marcas, afectou acesso aos resorts de Sangano, logo em reposição, depenicou o areal, e escabujou-se à roda das cubatas da aldeia dos pescadores dali, mais avisados e prevenidos, afortunadamente. Espero voltar lá, brevemente, e ver com está.
A surpresa aguardava-nos na foz do Kuanza que, segundo entendidos, até final do mês, ou pouco mais, vai mudar completamente de figura. Com efeito, a bela língua de areia que se espraiava entre o oceano e o rio, delicada e fofa como um palito la reine, apresentava-se um tanto desdentada, com entradas por onde galgavam as ondas até lamberem o rio, agora azul marinho em correntezas de meter respeito. Como quem sabe o que aí vem e já se vai preparando. A fazer fé nas previsões, que os movimentos da geo-dinâmica autóctone, surpreendentemente espantosos, não enganam ninguém, a restinga vai desaparecer a brevíssimo trecho, na margem direita vai nascer uma praia, e o rio vai entrar a direito no mar, sem se demorar naquele comprido lagozinho remançoso, mas com forte personalidade, onde nos acocorávamso em amenas cavaqueiras, quais hipopótamos de pequeno porte e grande deleite. A caminhada restinga fora, ora na frescura espumosa do mar, ora no chapinhar cóceguento do rio, desaguava sempre em banhos de caldeira morna, lentos, demorados, relaxantes. Acabou; ou vai acabar. Outro programa de festas há-de vir, que o sítio é de eleição e vai continuar a ser paradeiro de repouso e fruição.
Nas margens os mangais arregaçam mais ainda os esguios troncos, quase tranças, as águias pesqueiras planam altaneiras a mirar a pescaria, e os pescadores amadores, e amantes de pesca grossa, fazem contas ao peixe que está para vir já que, de momento, o que por aqui estagiava se foi em demanda de águas mais serenas, longe das calemas. Plantas, bichos e homens em concertada espera, quando o tino dos homens prevalece, que dos outros não há que temer, a mãe natureza os educou no respeito das tradições e na justeza dos costumes .
Ela, a mais-velha, se respalda em seus jeitos de realeza e, se cultuada a preceito, é magnânima em seus mimos, quanto desmesurada em seus amuos. Da sua raiva, em espasmos de sentida revolta, sabem sobretudo os homens que continuamente a provocam com arrebites de assomos de civilização, cada vez maiores os avanços e as perdas. Avançam, sem olhar a meios, os detentores do chamado progresso civilizacional. Perdem os demais, plantas, bichos e homens. E sobretudo os homens. Os que não navegam na crista da onda do progresso. Os das civilizações ditas atrasadas. Os das sociedades ditas subdesenvolvidas; ou das regiões (países) ditas em desenvolvimento; ou das economias ditas emergentes. Depende do que têm ou do que podem vir a render. E quando rendem, rendem para quem pode, para quem já tem e não para quem precisa, porque é preciso ter para poder cavalgar a onda. Resistir à calema.
As calemas que a tempos se eriçam na costa africana, em espendores de espuma e caprichos de ventania, revolteando areias, (re)talhando margens, expressivos bailados de Kiandas, as deusas dos mares, são aguardadas e celebradas como lhes é devido. Apenas os indígenas vulneráveis as temem, porque as respeitam e guardam reverência à mais-velha, mãe natureza. E a velha sente que os seus ensinamentos se desconjuntam, a terra se desmorona. E estrebucha e braveja. Dá sinal. O planeta, ele, o mais-velho, representa o poder, ela a força, mas ele não pode nada. Está seriamente ameaçado. Todavia, e ainda, ao abrigo das calemas da civilização? Nada o garante. Muito pelo contrário.
Luanda, 22 abril 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
De Benguela para a Gabela...
O fim de semana prolongado da Páscoa, precedido de um compromisso profissional em Benguela, foi aproveitado para nova incursão naquelas paragens e, no regresso, uma visita à Gabela, a terra dos cafezais que, segundo informação espúria, estariam em período de floração.
As flores já se tinham transformado em pequenos bagos verdes, não imediatamente visíveis aos olhos de quem não conhece o arbusto cafezeiro, de modo que após minuciosa busca lá se percebeu que estávamos em presença de vastas plantações de café, de um e de outro lado da estrada. O mar verde de onde se erguiam imbondeiros, bananeiras, e um nunca mais acabar de troncos, ramos e folhas numa algazarra de passarada, flores garridas e frutos “desconhecidos” – a diversidade não aproveita à ignorância de visitantes bio-analfabetos - era afinal o demandado cafezal. A estrada da Gabela é um espécie de pesponto ziguezagueante na vastidão da paisagem verdejante, espampanante no exagero de tons e viços, espelhada no azul prateado do rio que se esgueira por palmares e lagoas, e onde aqui e ali se arredondam aldeias de cubatas e de adobes. Estas, como as da vila, de casas vermelhas da cor da terra, colmadas ou com telhado de zinco, encarrapitadas nos morros em cascata, assim a lembrar o presépio, humildes na singeleza dos cómodos e dos haveres. Maravilha para quem vê, é um espanto, dureza para quem lá vive, dá que pensar, mas que não se adivinha no vaivém colorido das gentes e na garridice da catraiada. Dir-se-ia que de tão pouco ter esta gente com pouco se contenta, e se entrega em perfeita harmonia ao brilho da luz , apesar do sol inclemente, que se derrama nas cores cálidas da mãe natureza, ela que a todos se impõe e tudo domina. Enfim, a visão romântica do passante, bem acantonado no ar condicionado, que no devaneio da miragem se escusa a pensar nas endemias e apêndice de enfermidades e escassezes que determinam vidas desprotegidas e mortes prematuras. Beleza e ironia….
A meio caminho, paragem nas cachoeiras do Sumbe, imponente espectáculo natural de luz e som, grossas cortinas cantantes de água a esfumear brancura no verde do entorno recortado no céu azul pintalgado de farrapos de nuvens, e o rio segue lesto a reverberar dourados na manhã soalheira. Ali perto uma aldeia, e o formigueiro do mercado de rua , cabanas e casas de pau-a-pique, outras mais de alvenaria, porém esconsas, perene o abandono das gentes que se afadigam no frenesim de acrescentar às vidas minguadas o pão-nosso-de-cada-dia.
Benguela, a cidade das acácias rubras, continua esbelta e mal trajada. Belas vivendas do período colonial, à vista bem restauradas, bordejam amplas avenidas, boas enfiaduras, junto à zona ribeirinha, onde um passeio marítimo a pedir restauro, salvo no pedaço ocupado por restaurantes e esplanadas, tal como os edifícios, os passeios e os jardins de boa parte da cidade reclamam intervenção urgente. E então Benguela será a bela.
Uma volta pela costa, nos arredores da cidade, levam-nos à linda praia da Baía Azul, enfeitada de árvorezitas de rendilhada folhagem, extenso areal perlado de conchas e pequenos búzios onde um mar canelado, esticadinho, azul e verde desenha bicos de espuma branca. Tudo é luz, cor e serenidade apenas agitada pelo pipiar dos pássaros em revoada. Adiante, picada fora na vastidão do festival de verdes da paisagem, assoma-se à aldeia, paupérrima, e porto de pesca da Caota, com destino à Caotinha, pequeno promontório debruçado sobre uma extensão de mar de crépon azul e esmeraldado a perder de vista. E a vista perde-se em deleites de lavar-olhos-e-enxaguar-alma. Num repente, enxameiam os meninos da aldeia dos pescadores, olhinhos fosforescentes na lengalenga da pedinchice suscitada pela presença de estranhos, estrangeiros, entretém de graúdos e pequenada num lugar onde não acontece nada. Na desvairada beleza da natureza selvagem e dominadora. Só a pobreza das gentes mora aqui.
Luanda, 16 Abril 2009
As flores já se tinham transformado em pequenos bagos verdes, não imediatamente visíveis aos olhos de quem não conhece o arbusto cafezeiro, de modo que após minuciosa busca lá se percebeu que estávamos em presença de vastas plantações de café, de um e de outro lado da estrada. O mar verde de onde se erguiam imbondeiros, bananeiras, e um nunca mais acabar de troncos, ramos e folhas numa algazarra de passarada, flores garridas e frutos “desconhecidos” – a diversidade não aproveita à ignorância de visitantes bio-analfabetos - era afinal o demandado cafezal. A estrada da Gabela é um espécie de pesponto ziguezagueante na vastidão da paisagem verdejante, espampanante no exagero de tons e viços, espelhada no azul prateado do rio que se esgueira por palmares e lagoas, e onde aqui e ali se arredondam aldeias de cubatas e de adobes. Estas, como as da vila, de casas vermelhas da cor da terra, colmadas ou com telhado de zinco, encarrapitadas nos morros em cascata, assim a lembrar o presépio, humildes na singeleza dos cómodos e dos haveres. Maravilha para quem vê, é um espanto, dureza para quem lá vive, dá que pensar, mas que não se adivinha no vaivém colorido das gentes e na garridice da catraiada. Dir-se-ia que de tão pouco ter esta gente com pouco se contenta, e se entrega em perfeita harmonia ao brilho da luz , apesar do sol inclemente, que se derrama nas cores cálidas da mãe natureza, ela que a todos se impõe e tudo domina. Enfim, a visão romântica do passante, bem acantonado no ar condicionado, que no devaneio da miragem se escusa a pensar nas endemias e apêndice de enfermidades e escassezes que determinam vidas desprotegidas e mortes prematuras. Beleza e ironia….
A meio caminho, paragem nas cachoeiras do Sumbe, imponente espectáculo natural de luz e som, grossas cortinas cantantes de água a esfumear brancura no verde do entorno recortado no céu azul pintalgado de farrapos de nuvens, e o rio segue lesto a reverberar dourados na manhã soalheira. Ali perto uma aldeia, e o formigueiro do mercado de rua , cabanas e casas de pau-a-pique, outras mais de alvenaria, porém esconsas, perene o abandono das gentes que se afadigam no frenesim de acrescentar às vidas minguadas o pão-nosso-de-cada-dia.
Benguela, a cidade das acácias rubras, continua esbelta e mal trajada. Belas vivendas do período colonial, à vista bem restauradas, bordejam amplas avenidas, boas enfiaduras, junto à zona ribeirinha, onde um passeio marítimo a pedir restauro, salvo no pedaço ocupado por restaurantes e esplanadas, tal como os edifícios, os passeios e os jardins de boa parte da cidade reclamam intervenção urgente. E então Benguela será a bela.
Uma volta pela costa, nos arredores da cidade, levam-nos à linda praia da Baía Azul, enfeitada de árvorezitas de rendilhada folhagem, extenso areal perlado de conchas e pequenos búzios onde um mar canelado, esticadinho, azul e verde desenha bicos de espuma branca. Tudo é luz, cor e serenidade apenas agitada pelo pipiar dos pássaros em revoada. Adiante, picada fora na vastidão do festival de verdes da paisagem, assoma-se à aldeia, paupérrima, e porto de pesca da Caota, com destino à Caotinha, pequeno promontório debruçado sobre uma extensão de mar de crépon azul e esmeraldado a perder de vista. E a vista perde-se em deleites de lavar-olhos-e-enxaguar-alma. Num repente, enxameiam os meninos da aldeia dos pescadores, olhinhos fosforescentes na lengalenga da pedinchice suscitada pela presença de estranhos, estrangeiros, entretém de graúdos e pequenada num lugar onde não acontece nada. Na desvairada beleza da natureza selvagem e dominadora. Só a pobreza das gentes mora aqui.
Luanda, 16 Abril 2009
Chove em Luanda....
Após um mais longo do que o habitual período de estiagem a época das chuvas fez finalmente a sua entrada em Luanda. Eram frequentes os comentários a propósito, em particular na imprensa escrita, advogando que o “feitiço” da seca era uma lotaria, no caso a correr bem para as obras do governo, em particular as do governo provincial de Luanda estariam a ganhar com isso, mas a poder dar para o torto se a chuva não começasse a pingar porque o povo dos muceques, a maioria da população da cidade, já andava inquieto, a sufocar poeira e a esquadrinhar os possíveis autores do tal feitiço.
Feitiços e feiticeiros aqui é coisa séria. Mesmo em plena capital, volta não volta lá vêm ao de cima, fora o que é abafado, notícias de violência sobre crianças ou velhos acusados de feitiçaria. O caso das seitas, descobertas e desmanteladas, que em Luanda mantinham prisioneiras cerca de quarenta crianças “feiticeiras” indignou a opinião pública, e veio pôr a nu uma realidade pressentida, sabida, mas não assumida. Desde então incidentes relacionados com alegadas práticas, e acusações, de feitiçaria têm vindo a ser noticiados. As elevadas taxas de analfabetismo favorecem o campear do obscurantismo e da crendice, as más condições de vida e a penúria completam o ramalhete, independentemente dos matizes da matriz cultural africana, mais telúrica. A explicação mais desempoeirada, porém, ouvi-a de um jovem de muceque, motorista de profissão, pouco escolarizado, mas informado: “ é gente muito ignorante e muito mais oportunista, porque só acusam os que lhes convêm e não se podem defender; é sempre a velha que tem casa própria que é feiticeira, ou a criança que é filho doutro matrimónio”. É o viver no limiar, ou abaixo, da pobreza.
Bom, mas as chuvas lá acabram por cair em Luanda. Chuva grossa, redonda, que chega sem quase aviso e se despenha em fragores dum céu que de repente se põe antracite e o ar fica espesso e esbranquiçado. Num repente muda tudo, só o calor parece aumentar. E num repente há enxurradas inimagináveis, as ruas passam a riachos, alguns caudalosos, muita gente corre à procura abrigo, o banho de encharcar é garantido, outros descalçam-se e fazem-se ao piso, pernas dentro d’água. Os carros, pneus afundados, deslizam a espadeirar água e lama enquanto vão galgando os improvisados rios que arrastam terra e detritos num cenário incendiado de raios e coriscos. Tudo estrondeia, e os eflúvios da terra molhada enrolam-se no ar quente.
Esta é a versão “secos e molhados” romântica de quem assiste, bem protegido, às chuvas em Luanda. Bastam umas horas, poucas, e no apuramento de resultados há inundações, casas e carros danificados, árvores tombadas, vias interrompidas. Nos bairros populares, mais muceque menos muceque, os danos, conhecidos e divulgados, dão conta de habitações destruídas, quando não mortes e afogamentos, ruas (??) intransitáveis, prejuizos elevados, enfim, durante dias os charcos, a lama e o lixo desfeito hão-de tomar conta da vida daquela gente. Até à próxima chuvada. Que por especial desígnio da natureza há-de fazer-se chegada tempos depois. Acho que ninguém quer imaginar o que seria de Luanda se chovesse dias a fio….
Nas províncias, especialmente no centro sul, a chuva cai sem parar, as cidades ficam inundadas e desmoronadas, desaparecem aldeias, rebentam diques e pontes, morre gente, talvez muita (?), chegam à capital ecos da desgraça, há milhares de desalojados, irrompem as campanhas de solidariedade e de recolha de fundos, alimentos e roupa, anunciam-se obras de reconstrução, prometem-se obras de prevenção. São mobilizados homens e máquinas, há gente do governo em penosa digressão, os esforços propalados são de monta.
Há quem cientificamente reclame consequências das alterações climatéricas. O maldito aquecimento global pisa sem dó os mais pobres que, por o serem, são mais vulneráveis. A poluição global descarrega em cima deles as nuvens mais viciadas. A indiferença global deixa-os entregues à sorte, ou ao azar.. A ganância global rouba-lhes os projectos de infra-estrutura e de protecção. A corrupção global atira-lhes com materiais obsoletos de construção e come-lhes o tutano da produção. A terra rica não “enrica” quem lá trabuca e não manduca. A sacrossanta globalização toca a todos, sobretudo no perder, mas uns são mais atreitos do que outros. E que me conste o “ao deus dará” não vem da matriz cultural africana; eles é mais as forças da natureza e dos espíritos, dos ancestrais. Herdaram, os poderosos, com sofreguidão e despudor, a sageza judaico-cristã do “venha-a-nós”. Haja paz!
Luanda, 7 abril 2009.
Feitiços e feiticeiros aqui é coisa séria. Mesmo em plena capital, volta não volta lá vêm ao de cima, fora o que é abafado, notícias de violência sobre crianças ou velhos acusados de feitiçaria. O caso das seitas, descobertas e desmanteladas, que em Luanda mantinham prisioneiras cerca de quarenta crianças “feiticeiras” indignou a opinião pública, e veio pôr a nu uma realidade pressentida, sabida, mas não assumida. Desde então incidentes relacionados com alegadas práticas, e acusações, de feitiçaria têm vindo a ser noticiados. As elevadas taxas de analfabetismo favorecem o campear do obscurantismo e da crendice, as más condições de vida e a penúria completam o ramalhete, independentemente dos matizes da matriz cultural africana, mais telúrica. A explicação mais desempoeirada, porém, ouvi-a de um jovem de muceque, motorista de profissão, pouco escolarizado, mas informado: “ é gente muito ignorante e muito mais oportunista, porque só acusam os que lhes convêm e não se podem defender; é sempre a velha que tem casa própria que é feiticeira, ou a criança que é filho doutro matrimónio”. É o viver no limiar, ou abaixo, da pobreza.
Bom, mas as chuvas lá acabram por cair em Luanda. Chuva grossa, redonda, que chega sem quase aviso e se despenha em fragores dum céu que de repente se põe antracite e o ar fica espesso e esbranquiçado. Num repente muda tudo, só o calor parece aumentar. E num repente há enxurradas inimagináveis, as ruas passam a riachos, alguns caudalosos, muita gente corre à procura abrigo, o banho de encharcar é garantido, outros descalçam-se e fazem-se ao piso, pernas dentro d’água. Os carros, pneus afundados, deslizam a espadeirar água e lama enquanto vão galgando os improvisados rios que arrastam terra e detritos num cenário incendiado de raios e coriscos. Tudo estrondeia, e os eflúvios da terra molhada enrolam-se no ar quente.
Esta é a versão “secos e molhados” romântica de quem assiste, bem protegido, às chuvas em Luanda. Bastam umas horas, poucas, e no apuramento de resultados há inundações, casas e carros danificados, árvores tombadas, vias interrompidas. Nos bairros populares, mais muceque menos muceque, os danos, conhecidos e divulgados, dão conta de habitações destruídas, quando não mortes e afogamentos, ruas (??) intransitáveis, prejuizos elevados, enfim, durante dias os charcos, a lama e o lixo desfeito hão-de tomar conta da vida daquela gente. Até à próxima chuvada. Que por especial desígnio da natureza há-de fazer-se chegada tempos depois. Acho que ninguém quer imaginar o que seria de Luanda se chovesse dias a fio….
Nas províncias, especialmente no centro sul, a chuva cai sem parar, as cidades ficam inundadas e desmoronadas, desaparecem aldeias, rebentam diques e pontes, morre gente, talvez muita (?), chegam à capital ecos da desgraça, há milhares de desalojados, irrompem as campanhas de solidariedade e de recolha de fundos, alimentos e roupa, anunciam-se obras de reconstrução, prometem-se obras de prevenção. São mobilizados homens e máquinas, há gente do governo em penosa digressão, os esforços propalados são de monta.
Há quem cientificamente reclame consequências das alterações climatéricas. O maldito aquecimento global pisa sem dó os mais pobres que, por o serem, são mais vulneráveis. A poluição global descarrega em cima deles as nuvens mais viciadas. A indiferença global deixa-os entregues à sorte, ou ao azar.. A ganância global rouba-lhes os projectos de infra-estrutura e de protecção. A corrupção global atira-lhes com materiais obsoletos de construção e come-lhes o tutano da produção. A terra rica não “enrica” quem lá trabuca e não manduca. A sacrossanta globalização toca a todos, sobretudo no perder, mas uns são mais atreitos do que outros. E que me conste o “ao deus dará” não vem da matriz cultural africana; eles é mais as forças da natureza e dos espíritos, dos ancestrais. Herdaram, os poderosos, com sofreguidão e despudor, a sageza judaico-cristã do “venha-a-nós”. Haja paz!
Luanda, 7 abril 2009.
Março, mês das mulheres....
Em Angola Março é um mês dedicado às mulheres. A 2 de março celebra-se o dia da mulher angolana. A 8, obviamente, celebra-se o dia internacional da mulher, e é feriado nacional.
Se o tema da violência doméstica já era objecto de discussão na opinião pública, este mês tem -se-lhe dedicado uma particular atenção, quer pelo tratamento de matérias específicas na imprensa falada e escrita, quer pelas muitas iniciativas que aqui e ali vão sendo anunciadas.
Ora se há coisa de que já me tinha apercebido nestes curtos meses de estadia é que a sociedade angolana é profundamente falocrática e os tiques de machismo, não o ibérico, topam-se a olho nu. Não precisei de me esmerar muito na observação do que me vai passando por perto, nas conversas com angolanos, inclusive patrícios com dupla nacionalidade aqui radicados há anos, no comportamento do cidadão comum nos espaços públicos, etc. Pressente-se uma larvar , inconsciente?, desvalorização da mulher: elas são sempre objectos de consumo, as mais das vezes dispendiosos e que dão muita canseira, as propaladas várias mulheres a que cada homem tem direito, e de que se ufana, e que, convenhamos, é um estilo diferente do costumeiro uso, ou pretensão de, dos escalpes à cintura que o famoso , e ridículo, macho latino, e derivados, faz, ou ainda vai fazendo porque já não é o que era, as mulheres emancipadas estão-lhe a acabar com a raça, mas voltando atrás, as mulheres de colecção parecem (??!!!) não se dar muito mal com isso. O casamento “de papel passado” é acontecimento social relevante, a atestá-lo os aparatosos cortejos nupciais, com muito espalhafato e muitos figurantes, mas a condição de “mulher de” em regime de acasalamento não se me afigura socialmente desvalorizante. Ser a outra, que até é letra de canção em voga, confere estatuto enquanto mãe dos filhos de. O homem angolano faz questão de se afirmar pelo número de filhos, e não os ter, isso sim, é penalizador em termos sociais. Logo, muitos filhos, várias mulheres, famílias numerosas e alargadas, não aparente conflitualidade entre os diferentes núcleos familiares, tudo isto perpassa aos olhos de quem observa sem quaisquer instrumentos de análise mais fina. É o que parece ser. E empiricamente se atribui a uma matriz cultural africana e, em Angola, também às consequências da guerra, elevado número de homens mortos, excedente de mulheres com fraca inserção no mercado de trabalho, economicamente dependentes, que assumem sem constrangimento o seu papel de reprodutoras a troco de alguma estabilidade, e reconhecimento, social. Dependendo do grupo social a que pertencem porque, numa sociedade estratificada como a angolana, na base da pirâmide as famílias alargadas assentam cada vez mais em núcleos monoparentais. São as mulheres que sustentam os filhos, os netos, os pais desapareceram ou pura e simplesmente abandonaram o lar; ou então decidiram não reconhecer a paternidade e não pagar pensão de alimentos. Para além de que as gravidezes precoces continuam a ser flagelo social. Meninas com vidas interrompidas, que abandonam os estudos, e cujo destino mais provável é a “zunga”, assim chamada a venda ambulante, e a reprodução incessante do ciclo de pobreza: a zungueira, ou quitandeira, está condenada a uma vida dura, levanta-se antes da madrugada, carrega pesos impensáveis, percorre as ruas da cidade até ao anoitecer, garante o sustento da casa e dos filhos, e quantas vezes do homem, quando o há, desempregado ou sem vocação para o emprego. É mulher guerreira, sobrevive na selva de asfalto, carrega o filho pequeno às costas, foge da polícia, corre para apanhar o “táxi”, o candongueiro de todas as incertezas e perigos, chega a casa noite dentro, leva pancada, se há homem, e mesmo se não há vai-se perdendo nos sonhos e e nas promessas da vida, e os filhos a aumentar. Ainda esta manhã ouvia numa entrevista de rádio, “zungueira, 23 anos, quatro filhos, o esposo motorista” mas…. não percebi bem, talvez com alergia ao volante… ela levanta-se às 3 horas da manhã, etc., etc., etc.
Neste contexto, e dada a minha mania antropológica de chegar, observar e tentar entender, a actividade das organizações de mulheres despertava-me grande curiosidade, ia lendo e ouvindo a respeito, porém sem qualquer relação de proximidade até que, inesperadamente, me foi oferecido um convite para participar numa iniciativa da OMA, organização das mulheres angolanas, do MPLA, comemorativa do dia Internacional da Mulher. Tratava-se de um almoço/convívio algures numa esplanada no centro de Luanda. À chegada, a senhora que me convidara mais três amigas e eu, fomos gentilmente recebidas à porta e encaminhadas para a mesa que nos foi destinada. Foi-nos indagada a nacionalidade. Nas mesas em redor havia já grupos de mulheres em amena cavaqueira, muitas trajando belíssimos estampados tradicionais, e os turbantes que não me cansava de mirar e remirar, havia alguns homens, poucos e meio enfiados, sabiam-se não vedetas,, contrariamente ao habitual, e a conversa ia fluindo descontraída. A dada altura vem alguém por entre as mesas, cumprimentando e saudando com um sorriso cúmplice as “camaradas e as irmãs” ali presentes, e indaguei quem era aquela simpática senhora, bonita figura de mulher, fina e elegante numa impecável túnica branca, ao que me responderam ser a “camarada Inga”. E, eis senão quando, fui abordada no sentido de ir ocupar a mesa principal, da secretária-geral da organização, porque portuguesa e porque a “camarada Inga” fazia gosto em juntar representantes de diferentes nacionalidades. Resolvido o embaraço que se me colocou face ao eventual abandono do grupo original, lá me fui juntar ao grupo na “mesa da presidência”, passe o exagero, onde, à excepção de uma senhora vietnamita que não falava outra língua que não a sua, e por isso não falava apenas sorria, a conversa ia rolando, de orelha a orelha, ao abrigo do som que se desprendia do palco. O almoço foi uma soberba mostra da culinária tradicional de diferentes províncias, pratos e sabores. Em rusga se ia à comida, o conjunto, que entretanto reconheci de renome, ia marcando o ritmo, e não demorou muito a, entre comes e intervalos, andar tudo num vai-de-roda, alegria solta, gargalhadas e gingar de corpos numa africana confraternização onde os desconhecidos se conhecem, não há barreiras nem peias de cortesia. Todas as mulheres que ali estavam eram amigas, cúmplices nos requebros da dança, no trautear de cânticos e dialectos, cor, raça, pátria, religião diluidos na magnificência dos trajes tradicionais e nos motejos de ocasião.
A dada altura fui solicitada para falar à imprensa, e de seguida apareceu-me a televisão pública angolana, TPA, e sem cerimónia a conversa escorreu animada, como animada se foi espreguiçando a tarde entre risos e cochichos e passos de dança. Um compromisso anterior fez-me sair da festa antes do fim, que se iria prolongar noite dentro, e as despedidas, só na medida da proximidade incontornável, foram ternurentas. Saí como quem vai-ali-e-vem-já, maravilhada com a mulherista festança.
Uns dias depois haveria de receber novo convite, desta vez directamente da OMA, a que não pude corresponder por imposição de indesejável, porém não desprezível, maleita bacteriana.
Da OMA ficou a promessa de novas oportunidades. A mim espicaçou-se-me a vontade de entrar mais fundo no quotidiano angolano, de espiolhar por dentro esta sociedade que me fascina e intriga. À vista desarmada as contradições são “mais que muitas”, mas….. o que se esconde por detrás deste jeito solto e despreocupado de viver? Que verdades e valores encerra esta cultura? Quero, tenho de, perceber.
Luanda, 24 Março 2009
Se o tema da violência doméstica já era objecto de discussão na opinião pública, este mês tem -se-lhe dedicado uma particular atenção, quer pelo tratamento de matérias específicas na imprensa falada e escrita, quer pelas muitas iniciativas que aqui e ali vão sendo anunciadas.
Ora se há coisa de que já me tinha apercebido nestes curtos meses de estadia é que a sociedade angolana é profundamente falocrática e os tiques de machismo, não o ibérico, topam-se a olho nu. Não precisei de me esmerar muito na observação do que me vai passando por perto, nas conversas com angolanos, inclusive patrícios com dupla nacionalidade aqui radicados há anos, no comportamento do cidadão comum nos espaços públicos, etc. Pressente-se uma larvar , inconsciente?, desvalorização da mulher: elas são sempre objectos de consumo, as mais das vezes dispendiosos e que dão muita canseira, as propaladas várias mulheres a que cada homem tem direito, e de que se ufana, e que, convenhamos, é um estilo diferente do costumeiro uso, ou pretensão de, dos escalpes à cintura que o famoso , e ridículo, macho latino, e derivados, faz, ou ainda vai fazendo porque já não é o que era, as mulheres emancipadas estão-lhe a acabar com a raça, mas voltando atrás, as mulheres de colecção parecem (??!!!) não se dar muito mal com isso. O casamento “de papel passado” é acontecimento social relevante, a atestá-lo os aparatosos cortejos nupciais, com muito espalhafato e muitos figurantes, mas a condição de “mulher de” em regime de acasalamento não se me afigura socialmente desvalorizante. Ser a outra, que até é letra de canção em voga, confere estatuto enquanto mãe dos filhos de. O homem angolano faz questão de se afirmar pelo número de filhos, e não os ter, isso sim, é penalizador em termos sociais. Logo, muitos filhos, várias mulheres, famílias numerosas e alargadas, não aparente conflitualidade entre os diferentes núcleos familiares, tudo isto perpassa aos olhos de quem observa sem quaisquer instrumentos de análise mais fina. É o que parece ser. E empiricamente se atribui a uma matriz cultural africana e, em Angola, também às consequências da guerra, elevado número de homens mortos, excedente de mulheres com fraca inserção no mercado de trabalho, economicamente dependentes, que assumem sem constrangimento o seu papel de reprodutoras a troco de alguma estabilidade, e reconhecimento, social. Dependendo do grupo social a que pertencem porque, numa sociedade estratificada como a angolana, na base da pirâmide as famílias alargadas assentam cada vez mais em núcleos monoparentais. São as mulheres que sustentam os filhos, os netos, os pais desapareceram ou pura e simplesmente abandonaram o lar; ou então decidiram não reconhecer a paternidade e não pagar pensão de alimentos. Para além de que as gravidezes precoces continuam a ser flagelo social. Meninas com vidas interrompidas, que abandonam os estudos, e cujo destino mais provável é a “zunga”, assim chamada a venda ambulante, e a reprodução incessante do ciclo de pobreza: a zungueira, ou quitandeira, está condenada a uma vida dura, levanta-se antes da madrugada, carrega pesos impensáveis, percorre as ruas da cidade até ao anoitecer, garante o sustento da casa e dos filhos, e quantas vezes do homem, quando o há, desempregado ou sem vocação para o emprego. É mulher guerreira, sobrevive na selva de asfalto, carrega o filho pequeno às costas, foge da polícia, corre para apanhar o “táxi”, o candongueiro de todas as incertezas e perigos, chega a casa noite dentro, leva pancada, se há homem, e mesmo se não há vai-se perdendo nos sonhos e e nas promessas da vida, e os filhos a aumentar. Ainda esta manhã ouvia numa entrevista de rádio, “zungueira, 23 anos, quatro filhos, o esposo motorista” mas…. não percebi bem, talvez com alergia ao volante… ela levanta-se às 3 horas da manhã, etc., etc., etc.
Neste contexto, e dada a minha mania antropológica de chegar, observar e tentar entender, a actividade das organizações de mulheres despertava-me grande curiosidade, ia lendo e ouvindo a respeito, porém sem qualquer relação de proximidade até que, inesperadamente, me foi oferecido um convite para participar numa iniciativa da OMA, organização das mulheres angolanas, do MPLA, comemorativa do dia Internacional da Mulher. Tratava-se de um almoço/convívio algures numa esplanada no centro de Luanda. À chegada, a senhora que me convidara mais três amigas e eu, fomos gentilmente recebidas à porta e encaminhadas para a mesa que nos foi destinada. Foi-nos indagada a nacionalidade. Nas mesas em redor havia já grupos de mulheres em amena cavaqueira, muitas trajando belíssimos estampados tradicionais, e os turbantes que não me cansava de mirar e remirar, havia alguns homens, poucos e meio enfiados, sabiam-se não vedetas,, contrariamente ao habitual, e a conversa ia fluindo descontraída. A dada altura vem alguém por entre as mesas, cumprimentando e saudando com um sorriso cúmplice as “camaradas e as irmãs” ali presentes, e indaguei quem era aquela simpática senhora, bonita figura de mulher, fina e elegante numa impecável túnica branca, ao que me responderam ser a “camarada Inga”. E, eis senão quando, fui abordada no sentido de ir ocupar a mesa principal, da secretária-geral da organização, porque portuguesa e porque a “camarada Inga” fazia gosto em juntar representantes de diferentes nacionalidades. Resolvido o embaraço que se me colocou face ao eventual abandono do grupo original, lá me fui juntar ao grupo na “mesa da presidência”, passe o exagero, onde, à excepção de uma senhora vietnamita que não falava outra língua que não a sua, e por isso não falava apenas sorria, a conversa ia rolando, de orelha a orelha, ao abrigo do som que se desprendia do palco. O almoço foi uma soberba mostra da culinária tradicional de diferentes províncias, pratos e sabores. Em rusga se ia à comida, o conjunto, que entretanto reconheci de renome, ia marcando o ritmo, e não demorou muito a, entre comes e intervalos, andar tudo num vai-de-roda, alegria solta, gargalhadas e gingar de corpos numa africana confraternização onde os desconhecidos se conhecem, não há barreiras nem peias de cortesia. Todas as mulheres que ali estavam eram amigas, cúmplices nos requebros da dança, no trautear de cânticos e dialectos, cor, raça, pátria, religião diluidos na magnificência dos trajes tradicionais e nos motejos de ocasião.
A dada altura fui solicitada para falar à imprensa, e de seguida apareceu-me a televisão pública angolana, TPA, e sem cerimónia a conversa escorreu animada, como animada se foi espreguiçando a tarde entre risos e cochichos e passos de dança. Um compromisso anterior fez-me sair da festa antes do fim, que se iria prolongar noite dentro, e as despedidas, só na medida da proximidade incontornável, foram ternurentas. Saí como quem vai-ali-e-vem-já, maravilhada com a mulherista festança.
Uns dias depois haveria de receber novo convite, desta vez directamente da OMA, a que não pude corresponder por imposição de indesejável, porém não desprezível, maleita bacteriana.
Da OMA ficou a promessa de novas oportunidades. A mim espicaçou-se-me a vontade de entrar mais fundo no quotidiano angolano, de espiolhar por dentro esta sociedade que me fascina e intriga. À vista desarmada as contradições são “mais que muitas”, mas….. o que se esconde por detrás deste jeito solto e despreocupado de viver? Que verdades e valores encerra esta cultura? Quero, tenho de, perceber.
Luanda, 24 Março 2009
Pela praia de Sangano
De como ir a banhos tem que se lhe diga foi o que aprendi recentemente, não obstante ir até à praia seja programa mais do que frequente. Desta feita a ida foi a Sangano, uma das tais praias dos ricos, que pelos vistos , melhor dizendo, lido e ouvido, por aqui a divisão de classes traz à tiracolo quinquilharias várias, e dos carros e cilindradas, e dos condomínios mais ou menos fechados, e dos poisos jetessete de ocasião já me tinha dado conta, mas da hierarquia social das praias ainda não. Agora que sei vou ficar muito atenta, e enriquecida, presumo. É bom aprender coisas novas. Ou se calhar não tão novas assim, que dos tiques de burguesias balofas e entediadas, enfadonhas até dizer chega, tenho eu dose. Nem da lusa pátria me olvidei, nem podia mesmo que, abrenúncio, o quisesse, que os patrícios me vão mantendo espertinha, nem estava à espera de vir aqui encontrar o negro charme discreto da burguesia ou inspiração buñueliana quejanda.
Voltando aos pobres e ricos, os primeiros ficam-se por areais mais à mão, fazem-se à estrada mas quedam-se por alturas do museu da escravatura, a não mais de 50 km, a sul, da cidade capital, num pequeno morro que se ergue junto ao mar, na vasta planície de areias e sapal. Os outros dão gás e ar condicionado e vão aldear até Sangano, Cabo Ledo ou mais adiante, cabanas, restaurantes e afins, sempre coisa para mais de hora e meia de viagem, estrada desimpedida e Luanda cento e tal quilómetros atrás. O sufoco da miscigenação classista haverá de acontecer no regresso, e disso tomei primeira nota da leitura de uma expressiva reportagem estampada num jornal, ao entardecer e já entardecidas as gentes e as tolerâncias, pois ele é filas de trânsito infernal, atropelo e desrespeito de tudo quanto é regra, alcoois em desatinos suicidas de condutores mal encartados, sobremaneira jovens e alienados pelos excessos de fim-de-semana-sem-rédeas-ao-sol. Estes são os das praias mais à mão. E diz-se, e diz o jornal, que das outras mais longinhas também se escapam alguns cavaleiros do asfalto a acelerar arrogâncias de classe (nova)rica. Entrementes penam todos quantos se permitiram, mais acima ou mais abaixo, ir espairecer à beira-mar.
Se a paisagem até Sangano, mesmo se já muito vista, nunca deixa de surpreender, a descida para a praia, picada fora, falésia adentro, vai escorregando, travões às quatro rodas, pelo ocre rochoso da ravina, as araucárias enfileiradas a rematar a borda, os tufos de aloé a entremear de verde , dependurados, o mar a crescer em azuis de ondinhas de brincadeira, e lá em baixo a areia, no começo ainda terra e arvorezitas a sombrear os estacionamentos, e logo o areal desafogado, a perder de vista numa sementeira de conchas e búzios . As costumeiras caminhadas à borda-d’água, antes que o sol desamue e se descubra, o mar a cocegar provocações e mergulhos vigiado pelos torneados das ravinas, avermelhadas e altaneiras, encristadas de verdes ralos, aqui e ali rasgadas de cima abaixo por talhos que não chegam a ser caminhos, tal a altura e o declive. Gente, que não os veraneantes e sucedâneos, raramente se avista, embora a raridade de uns negritos recortados no topo, e logo como que por encanto prantados na areia, não deixe de acrescentar o exotismo do sítio.
Tirando os aldeamentos turísicos e suas acomodações, a aldeia de pescadores tem lugar preponderante na praia de Sangano. As cubatas colmadas de pau-a-pique, escuras antracite, alinham-se num curioso axadrezado de estendais de roupa e de seca de peixe, estes feitos de troncos em bancada, cobertos de peixes escalados arrumadinhos por tamanhos e feitios, no chão de terra batida. Os barcos de madeira, ora postos na areia, ora saídos para a faina, e em chegados o peixe vende-se logo ali e não chega para as encomendas. Não importa se é sábado ou domingo, na aldeia não se topam molezas de fim de semana, mesmo que as haja, e haverá. Os homens e as mulheres aparecem ocupados nas suas lides, elas na garridice dos panos e dos turbantes. A catraiada, putos semi-nus, espalha-se em cachos de algazarra e cabriolices na areia.
À medida que a manhã avança cresce o número de pessoas nas toalhas coloridas e na água. Nas esplanadas , terra batida sombreada por toldos ajaezados consoante o aparente improviso da decoração, pois percebe-se a intenção de parecer que tudo é natureza, as mesas e bancos corridos de madeira vão ganhando movimento e em breve quem não se precaveu com a necessária reserva corre o risco de ter de ir procurar almoço a outra parte. Da excelência dos peixes e mariscos que por aqui se comem não há muito a acrescentar, a não ser que desfiasse os petiscos e os sabores de fazer água na boca, o serviço, negro, é sempre acolhedor e simpático, duma lentidão ronronante e peripécias engraçadas, o linguado pedido chega à mesa travestido de lagosta, há que dizer “foi engano, não é para aqui”, e esperar mais um bocadito, debicando miudezas crustáceas , que a lagosta lá irá aterrar no prato de quem a pediu e o linguado mergulhar no nosso, e não morre ninguém. Faz parte do colorido local.
Como também vai sendo regra o afluxo de “tugas”, os portugueses, numa praia onde o que mais se vê são “pulas”, os brancos. Donde, para além da divisão de classes parece haver diferença de cores…. Será?!! Ora, há coisas muito mais importantes para nos ocupar as mentes.
Precaução ingente é metermo-nos à estrada antes que se faça tarde e o desatino campeie.
Luanda, 20 Janeiro 2009
Voltando aos pobres e ricos, os primeiros ficam-se por areais mais à mão, fazem-se à estrada mas quedam-se por alturas do museu da escravatura, a não mais de 50 km, a sul, da cidade capital, num pequeno morro que se ergue junto ao mar, na vasta planície de areias e sapal. Os outros dão gás e ar condicionado e vão aldear até Sangano, Cabo Ledo ou mais adiante, cabanas, restaurantes e afins, sempre coisa para mais de hora e meia de viagem, estrada desimpedida e Luanda cento e tal quilómetros atrás. O sufoco da miscigenação classista haverá de acontecer no regresso, e disso tomei primeira nota da leitura de uma expressiva reportagem estampada num jornal, ao entardecer e já entardecidas as gentes e as tolerâncias, pois ele é filas de trânsito infernal, atropelo e desrespeito de tudo quanto é regra, alcoois em desatinos suicidas de condutores mal encartados, sobremaneira jovens e alienados pelos excessos de fim-de-semana-sem-rédeas-ao-sol. Estes são os das praias mais à mão. E diz-se, e diz o jornal, que das outras mais longinhas também se escapam alguns cavaleiros do asfalto a acelerar arrogâncias de classe (nova)rica. Entrementes penam todos quantos se permitiram, mais acima ou mais abaixo, ir espairecer à beira-mar.
Se a paisagem até Sangano, mesmo se já muito vista, nunca deixa de surpreender, a descida para a praia, picada fora, falésia adentro, vai escorregando, travões às quatro rodas, pelo ocre rochoso da ravina, as araucárias enfileiradas a rematar a borda, os tufos de aloé a entremear de verde , dependurados, o mar a crescer em azuis de ondinhas de brincadeira, e lá em baixo a areia, no começo ainda terra e arvorezitas a sombrear os estacionamentos, e logo o areal desafogado, a perder de vista numa sementeira de conchas e búzios . As costumeiras caminhadas à borda-d’água, antes que o sol desamue e se descubra, o mar a cocegar provocações e mergulhos vigiado pelos torneados das ravinas, avermelhadas e altaneiras, encristadas de verdes ralos, aqui e ali rasgadas de cima abaixo por talhos que não chegam a ser caminhos, tal a altura e o declive. Gente, que não os veraneantes e sucedâneos, raramente se avista, embora a raridade de uns negritos recortados no topo, e logo como que por encanto prantados na areia, não deixe de acrescentar o exotismo do sítio.
Tirando os aldeamentos turísicos e suas acomodações, a aldeia de pescadores tem lugar preponderante na praia de Sangano. As cubatas colmadas de pau-a-pique, escuras antracite, alinham-se num curioso axadrezado de estendais de roupa e de seca de peixe, estes feitos de troncos em bancada, cobertos de peixes escalados arrumadinhos por tamanhos e feitios, no chão de terra batida. Os barcos de madeira, ora postos na areia, ora saídos para a faina, e em chegados o peixe vende-se logo ali e não chega para as encomendas. Não importa se é sábado ou domingo, na aldeia não se topam molezas de fim de semana, mesmo que as haja, e haverá. Os homens e as mulheres aparecem ocupados nas suas lides, elas na garridice dos panos e dos turbantes. A catraiada, putos semi-nus, espalha-se em cachos de algazarra e cabriolices na areia.
À medida que a manhã avança cresce o número de pessoas nas toalhas coloridas e na água. Nas esplanadas , terra batida sombreada por toldos ajaezados consoante o aparente improviso da decoração, pois percebe-se a intenção de parecer que tudo é natureza, as mesas e bancos corridos de madeira vão ganhando movimento e em breve quem não se precaveu com a necessária reserva corre o risco de ter de ir procurar almoço a outra parte. Da excelência dos peixes e mariscos que por aqui se comem não há muito a acrescentar, a não ser que desfiasse os petiscos e os sabores de fazer água na boca, o serviço, negro, é sempre acolhedor e simpático, duma lentidão ronronante e peripécias engraçadas, o linguado pedido chega à mesa travestido de lagosta, há que dizer “foi engano, não é para aqui”, e esperar mais um bocadito, debicando miudezas crustáceas , que a lagosta lá irá aterrar no prato de quem a pediu e o linguado mergulhar no nosso, e não morre ninguém. Faz parte do colorido local.
Como também vai sendo regra o afluxo de “tugas”, os portugueses, numa praia onde o que mais se vê são “pulas”, os brancos. Donde, para além da divisão de classes parece haver diferença de cores…. Será?!! Ora, há coisas muito mais importantes para nos ocupar as mentes.
Precaução ingente é metermo-nos à estrada antes que se faça tarde e o desatino campeie.
Luanda, 20 Janeiro 2009
Barra do Kuanza
De novo na foz do Kuanza…
O caminho, melhor dizendo, a estrada, habitual para a a Barra do Kuanza desagua no lado oposto do rio. Desta vez chegámos lá do lado da margem esquerda, que o mesmo é dizer que houve aventura de picada. Mais difícil ainda porque à ida não se topou logo a dita e então foi-se de zorro sapal adentro a desenhar picada numa patinagem ás quatro rodas, repuxos de lama a cobrir o jipe, e isso era o menos, que a sensação de que se ia atolar numa das guinadas, se não tombar, foi assim a eriçar a pele e a cortar a respiração. Mas valeu a pena, passado o sufoco, claro. Já perto da foz o terreno fez-se duro, já o palmar bordejava o rio que se enroscava azul, calmeirão e curvilíneo até se lançar de encontro ao mar em rumorejos e espalhafatos de ondas na ponta da restinga, largo banco de areia a separar o atlântico esverdeado e revolto das águas azul- cálidas e remançosas do rio.
O jipe atracou no topo do morro de areia e a caminhada, cerca de 5km, foi pela “marginal”, rio à ida e mar à vinda, porque apesar da manhã não ir adiantada as areias escaldavam os pés; o sol aqui não é de cerimónias, ergue-se cedo, pranta-se escancarado, e pronto.
Fora d’água a temperatura rondaria os 30 graus e dentro dela pouco abaixo andaria, embora refrescasse, apesar de tudo. De modo que o passeio foi temperado com banhos e braçadas, os peixes aos pinotes logo ali, quando não a roçagarem-nos, descarados, e ai que susto, o rio logo fundo, e o fundo à vista, o céu azulão cortado pelo vôo altaneiro da águia pesqueira, mergulho certeiro e logo o peixe no bico, a passarada mais miúda em revoadas irrequietas e logo em corridinhas na espuma da água, e o besouro aferroado em zunidos de ameaça, a pique sobre os intrusos, e vai mergulho, e foge e espaneja que a picada, a do bicho, é de respeito. Já pela borda-mar, volutas de espuma branca encarrapitadas nas ondas que se vêm estatelar na areia dourada, onde conchas e búzios de toda a forma e feitio, e peixes enormes inchados em carapaças de escamas dão de comer aos caranguejos.
Para retempêro de coragem e energia, antes do regresso, mais um derradeiro banho no rio, após correria de pés no ar areia fora, de través na restinga, que foi mais um ficar de molho, que nem hipopótamo, a demolhar o corpo e a vontade de dali sair.
Quis o acaso que na volta nos tivesse saído ao caminho a picada, a verdadeira, dura e enxuta, portanto só solavancos, sem patinagem. A estrada até Luanda corre com mar à vista, lá mais em baixo, esticado em rebrilhos de diamante, assim como um imenso manto de crépon azul-lápis-lasúli pincelado de verde-esmeralda. Do outro lado passa a savana, a reverdejar, onde embondeiros, de troncos a morenar e a soltar as jubas verdes, anunciam enfeites, as múcuas ainda só pingentinhos.
Paragem no mercado de artesanato de Benfica, a cerca de 20 km da cidade capital. Desfeito o recato e o des-à-vontade que inspira visto de fora, a frescura que se experimenta por debaixo dos colmos alinhados em toldos de improvisadas tendas em fileirinhas estreitas e sombreadas depressa dispõe à fala com os mestres, assim se tratam os artesãos.Aqui se vendem artefactos africanos sobretudo, embora entre os vendedores, não mestres, haja quem ofereça ásias e chinesices, com o devido respeito porque de artesanato se trata. Mas deambular pelos carreiros de terra por entre chamados e ofertas de desconto, e os olhos a desvairarem na multitude de peças, muitas delas inesperadamente indígenas e exóticas, mas sem fitar demais porque isso obriga logo a fazer oferta, o preço deve ser regateado, faz parte, é uma experiência africanizante que se quer repetir, mau grado a sensação de se entrar num mundo, pequeno mundo, completamente à parte. Fiquei cliente, (in)segura.
Luanda, 17 Dez. 2008
O caminho, melhor dizendo, a estrada, habitual para a a Barra do Kuanza desagua no lado oposto do rio. Desta vez chegámos lá do lado da margem esquerda, que o mesmo é dizer que houve aventura de picada. Mais difícil ainda porque à ida não se topou logo a dita e então foi-se de zorro sapal adentro a desenhar picada numa patinagem ás quatro rodas, repuxos de lama a cobrir o jipe, e isso era o menos, que a sensação de que se ia atolar numa das guinadas, se não tombar, foi assim a eriçar a pele e a cortar a respiração. Mas valeu a pena, passado o sufoco, claro. Já perto da foz o terreno fez-se duro, já o palmar bordejava o rio que se enroscava azul, calmeirão e curvilíneo até se lançar de encontro ao mar em rumorejos e espalhafatos de ondas na ponta da restinga, largo banco de areia a separar o atlântico esverdeado e revolto das águas azul- cálidas e remançosas do rio.
O jipe atracou no topo do morro de areia e a caminhada, cerca de 5km, foi pela “marginal”, rio à ida e mar à vinda, porque apesar da manhã não ir adiantada as areias escaldavam os pés; o sol aqui não é de cerimónias, ergue-se cedo, pranta-se escancarado, e pronto.
Fora d’água a temperatura rondaria os 30 graus e dentro dela pouco abaixo andaria, embora refrescasse, apesar de tudo. De modo que o passeio foi temperado com banhos e braçadas, os peixes aos pinotes logo ali, quando não a roçagarem-nos, descarados, e ai que susto, o rio logo fundo, e o fundo à vista, o céu azulão cortado pelo vôo altaneiro da águia pesqueira, mergulho certeiro e logo o peixe no bico, a passarada mais miúda em revoadas irrequietas e logo em corridinhas na espuma da água, e o besouro aferroado em zunidos de ameaça, a pique sobre os intrusos, e vai mergulho, e foge e espaneja que a picada, a do bicho, é de respeito. Já pela borda-mar, volutas de espuma branca encarrapitadas nas ondas que se vêm estatelar na areia dourada, onde conchas e búzios de toda a forma e feitio, e peixes enormes inchados em carapaças de escamas dão de comer aos caranguejos.
Para retempêro de coragem e energia, antes do regresso, mais um derradeiro banho no rio, após correria de pés no ar areia fora, de través na restinga, que foi mais um ficar de molho, que nem hipopótamo, a demolhar o corpo e a vontade de dali sair.
Quis o acaso que na volta nos tivesse saído ao caminho a picada, a verdadeira, dura e enxuta, portanto só solavancos, sem patinagem. A estrada até Luanda corre com mar à vista, lá mais em baixo, esticado em rebrilhos de diamante, assim como um imenso manto de crépon azul-lápis-lasúli pincelado de verde-esmeralda. Do outro lado passa a savana, a reverdejar, onde embondeiros, de troncos a morenar e a soltar as jubas verdes, anunciam enfeites, as múcuas ainda só pingentinhos.
Paragem no mercado de artesanato de Benfica, a cerca de 20 km da cidade capital. Desfeito o recato e o des-à-vontade que inspira visto de fora, a frescura que se experimenta por debaixo dos colmos alinhados em toldos de improvisadas tendas em fileirinhas estreitas e sombreadas depressa dispõe à fala com os mestres, assim se tratam os artesãos.Aqui se vendem artefactos africanos sobretudo, embora entre os vendedores, não mestres, haja quem ofereça ásias e chinesices, com o devido respeito porque de artesanato se trata. Mas deambular pelos carreiros de terra por entre chamados e ofertas de desconto, e os olhos a desvairarem na multitude de peças, muitas delas inesperadamente indígenas e exóticas, mas sem fitar demais porque isso obriga logo a fazer oferta, o preço deve ser regateado, faz parte, é uma experiência africanizante que se quer repetir, mau grado a sensação de se entrar num mundo, pequeno mundo, completamente à parte. Fiquei cliente, (in)segura.
Luanda, 17 Dez. 2008
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